ISSN: 1647-2829

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N.º 7

Jan. - Abr. 2014

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Teses e Projectos


Recuperação de bivalves de água doce ameaçados em Portugal: Projecto LIFE Ecotone

Projecto

 

Joaquim Reis 1,2, Alexandrina Pipa 1, Sandra Vieira 1, Paulo Lucas 1

 

1 Quercus, Associação Nacional de Conservação da Natureza.

2 Instituto Português de Malacologia.


 

Em 2012 teve início o projecto LIFE “Ecotone - Gestão de habitats ripícolas para a conservação de invertebrados ameaçados”. O seu objectivo central é conceber, implementar e avaliar metodologias de gestão activa do habitat prioritário ― 91E0 *Florestas aluviais de Alnus glutinosa e Fraxinus excelsior (Alno-Padion, Alnion incanae, Salicion albae) – para incrementar populações de odonatos (Oxygastra curtisii, Gomphus graslinii e Macromia splendens) e melhorar o estado de conservação das populações de náiades de espécies ameaçadas [Margaritifera margaritífera e Unio tumidiformis (=Unio crassus)]. O projecto vai desenvolver-se em troços de dois cursos de água com características diferenciadas, localizados nos SIC “Rio Paiva” (PTCON0059) e “Costa Sudoeste” (PTCON0012), prevendo-se diferentes abordagens em função das características dos locais intervencionados: o rio Paiva é um curso de água com caudal permanente, com águas bem oxigenadas; enquanto que a ribeira do Torgal apresenta padrões de caudal altamente variáveis, quer sazonalmente, quer interanualmente, que lhe conferem um regime hidrológico temporário.

 

Para além de diversas intervenções a nível do habitat dos rios, o projecto está a desenvolver um programa de reprodução ex situ das duas espécies de náiades (M. margaritifera e U. tumidiformis) e dos respectivos hospedeiros [truta – Salmo trutta (forma sedentária) e escalo do Mira – Squalius torgalensis]. Este programa pretende dar suporte a técnicas de reforço das populações de ambos com resultados previsíveis. A população de M. margaritifera do rio Paiva evidencia uma regressão continuada, causada sobretudo pela redução da população de Salmo trutta no rio. A espécie poderá pois beneficiar das acções de melhoria de habitat que também favorecem o seu hospedeiro. No entanto, a sua recuperação pode ser potenciada e acelerada através de um programa de reprodução em cativeiro e reforço com os juvenis assim criados. Por outro lado, a população de Unio tumidiformis no rio Torgal é extremamente reduzida, devido em grande parte à falta de pêgos permanentes, ou seja, de zonas onde em anos de seca severa se mantém água e onde o habitat é muito estável. Estes são os únicos locais onde os mexilhões-de-rio podem sobreviver e completar o seu ciclo de vida, pelo que um dos objectivos principais do projecto foi a identificação destes locais. A criação de outras massas de água permanentes associada ao seu povoamento com juvenis criados em cativeiro tornam possível um melhoramento da população a curto/médio prazo.

 

O primeiro ano do projecto foi dedicado a preparar as instalações da estação aquícola de Campelo para a reprodução dos bivalves, assim como à caracterização do estado das populações. No final de 2012 foi já possível iniciar o programa de reprodução em cativeiro de Margaritifera margaritifera, e em 2013 o de Unio tumidiformis, sendo aqui apresentado um resumo dos primeiros resultados.

 

 

Programa de reprodução de Margaritifera margaritifera

 

Para iniciar o programa de reprodução em cativeiro foram adquiridas 125 trutas Salmo trutta fario e instaladas em duas race-ways (tanques alongados com água corrente em sistema aberto) na estação aquícola de Campelo. Em Setembro de 2012 foram capturadas no rio Paiva 12 fêmeas de M. margaritifera com gloquídios maduros, tendo sido transportadas imediatamente para Campelo. Em cada race-way foram colocadas seis fêmeas semi-enterradas em substrato arenoso, ao mesmo tempo que foram misturados os gloquídios libertados durante o transporte na água das race-ways. O sucesso da operação foi comprovado ao fim de três dias, observando os gloquídios enquistados nas brânquias das trutas. Após o período expectável da fase parasítica, as trutas foram transferidas em Abril de 2013 para tanques cónicos preparados para a recolha de juvenis. Os primeiros juvenis foram detectados a partir do dia 14 de Abril, com a ajuda de uma lupa binocular (Leica® EZ4 HD). No total foram recolhidos 85.242 juvenis ao longo dos 2 meses seguintes. Foram então colocados em diferentes condições de crescimento, sendo os que foram colocados em sistema fechado alimentados com algas (Scenedesmus sp. e Nanochloropsis sp.), detritos (locais e recolhidos em lameiros) e extracto de amieiro. Os juvenis mantidos desta forma foram contados semanalmente e medidos com recurso a uma lupa binocular. Os resultados preliminares mostram que em 20 semanas alguns juvenis chegam a alcançar 1,4mm de comprimento (Figura 1).

 

 

Figura 1. Crescimento dos juvenis de Margaritifera margaritifera em sistema fechado.

 

 

Programa de reprodução de Unio tumidiformis

 

Para iniciar o programa de reprodução em cativeiro de Unio tumidiformis foram selecionados 100 bordalos (Squalius alburnoides) nascidos em cativeiro na estação aquícola de Campelo. Esta espécie é um dos hospedeiros conhecidos de Unio tumidiformis. Foram capturadas 16 fêmeas grávidas no rio Torgal em Junho de 2013. Os gloquídios foram recolhidos à medida que as fêmeas os libertaram, sendo imediatamente utilizados para infectar os peixes. Estes foram imediatamente transferidos para os tanques de recolha de juvenis. Foram obtidos juvenis a partir do 8º dia após a infecção e durante um máximo de 9 dias, estando o processo finalizado ao fim de aproximadamente 2 semanas. No total foram recolhidos 25.686 juvenis. Parte dos juvenis foram colocados em sistema fechado, em pequenos recipientes com água e alimentados com algas (Scenedesmus sp. e Nanochloropsis sp.). Os juvenis colocados em sistema fechados foram contados e medidos semanalmente. O crescimento destes juvenis variou muito ainda que nas mesmas condições, sendo mais rápido do que para M. margaritifera, tal como evidencia a dimensão máxima registada a cada semana (Figura 2).

 

 

Figura 2. Crescimento de Unio tumidiformis nascidos em cativeiro e mantidos em sistema fechado, alimentados com algas.

 

 

Tanto no caso de Margaritifera margaritifera como no caso de Unio tumidiformis, foram colocados juvenis em sistemas de retenção ou substrato arenoso nas race-ways da estação aquícola de Campelo e directamente nos rios de origem dos progenitores. Estes juvenis não foram alimentados artificialmente e serão monitorizados na primeira metade de 2014.

 

Os primeiros resultados dos programas de reprodução em cativeiro das duas espécies de náiades são muito encorajadores, mesmo no caso de Unio tumidiformis, uma espécie endémica no sudoeste Ibérico que nunca foi alvo deste tipo de programas e para o qual não existem protocolos estabelecidos. Espera-se que no final do projecto se venham a reintroduzir os juvenis criados em cativeiro já com uma dimensão que maximize a sua probabilidade de sobrevivência, em locais apropriados do rio, que benefeciaram das acções de melhoramento de habitat previstas no projecto e actualmente em curso.

 

 

Financiamento

 

Projecto co-financiado a 75% pelo instrumento financeiro LIFE da UE.

 

 

Mais informação

 

http://ecotone.pt


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