ISSN: 1647-2829

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N.º 7

Jan. - Abr. 2014

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Artigo Científico


A diversidade de macroinvertebrados de pequenas ribeiras mediterrânicas do Sudoeste de Portugal

 

Carla Mirra 1, Maria João Correia 1, Pedro M. Félix 1, Maria Luísa Chaves 1, Paula Chainho 1, José Lino Costa 1,2,

Luís Cancela da Fonseca 3,4,i

 

1 Centro de Oceanografia, Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa, Lisboa, Portugal

2 Departamento de Biologia Animal, Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa, Lisboa, Portugal

3 CTA – Centro de Ciências e Tecnologias da Água, Universidade do Algarve, Portugal

4 Laboratório Marítimo da Guia/Centro de Oceanografia, Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa, Cascais, Portugal

 

i calfernandes@fc.ul.pt


Resumo

 

Este estudo teve como principais objectivos determinar a estrutura da comunidade de macroinvertebrados bentónicos que ocorrem nas ribeiras das bacias hidrográficas de Santo André e de Melides e identificar a sua relação com as diferentes condições ambientais. Estas são bacias hidrográficas de pequenas dimensões, com clima mediterrânico, em que grande parte dos seus cursos de água têm um carácter temporário. Estas bacias dependem de afloramentos de água subterrânea proveniente do aquífero de Sines.

 

As amostragens foram efectuadas em 14 locais das duas bacias hidrográficas e em duas épocas do ano, recorrendo à técnica de kick sampling. Verificou-se que as comunidades de invertebrados são dominadas por insectos, anfípodes e gastrópodes. Entre os insectos, e como descrito para outras ribeiras do Sul de Portugal, a ordem Diptera foi a que apresentou maiores densidades, seguida da ordem Ephemeroptera. O estudo permitiu ainda determinar que a granulometria do sedimento, o regime de caudal (lêntico ou lótico), a concentração de oxigénio dissolvido e a concentração em matéria orgânica nos sedimentos são os principais factores estruturantes destas comunidades. Alterações nestas variáveis poderão afectar a densidade de organismos que compõem as comunidades, assim como a sua riqueza taxonómica. Por esse motivo, a correcta gestão da exploração das águas subterrâneas das quais estes ecossistemas dependem é determinante para a preservação da sua biodiversidade.

 

Palavras-chave: ecossistemas dependentes de águas subterrâneas, caudais, pequenas bacias hidrográficas, Melides, Santo André

 

 

Abstract

 

This study aims to ascertain the structure of benthic macroinvertebrate communities of Santo André and Melides River Basins and understand how these communities are affected by different environmental variables. These are small river basins with a Mediterranean climate. The majority of the watercourses of these basins is temporary and dependent on groundwater inflow from Sines’ aquifer.

 

For this study, the communities of 14 sites were sampled twice during the year. Insects are predominant in these locations, followed by amphipods and gastropods. As described for other streams of South Portugal, among the insects the order Diptera was the most abundant, followed by Ephemeroptera. This study showed that grain-size, environment (lentic or lotic), dissolved oxygen and organic matter are the major features structuring these communities. Changes in these variables may affect the density and richness of these communities, suggesting also that a sustainable exploitation policy for the aquifer is crucial to preserve the benthic communities of these water basins.

 

Keywords: groundwater dependent ecosystems, flow, small river basins, Melides, Santo André


 

Introdução

 

A ecologia de ribeiras e, em particular, as comunidades de macroinvertebrados bentónicos são maioritariamente influenciadas pela qualidade e heterogeneidade do substrato (Beisel et al., 2000), pelo pH, pela concentração de nutrientes e de oxigénio, pela matéria orgânica (Alba-Tercedor e Sánchez-Ortega, 1988), pela hidrologia (Bonada et al., 2006) e pela geomorfologia (Feio et al., 2005). As interacções entre estes múltiplos factores determinam os gradientes espaciais estabelecidos para os ecossistemas de água doce. No entanto, pressões antrópicas podem alterar estes padrões, ao afectar as características hidrológicas e físico-químicas das ribeiras.

 

Os macroinvertebrados bentónicos são das comunidades mais estudadas em águas correntes devido às suas qualidades como bioindicadores (Rada e Puljas, 2008). A estrutura destas comunidades responde a alterações químicas e físicas, sejam tais alterações naturais ou provocadas pelo Homem e, uma vez que estes macroinvertebrados ocupam uma posição intermédia na teia alimentar, têm efeitos nos processos do ecossistema (Covich et al., 1999; Roy et al., 2003).

 

As ribeiras do tipo mediterrânico são física, química e biologicamente afectadas por eventos sazonais, sequenciais e previsíveis de cheia e seca ao longo de um ciclo anual (Gasith e Resh, 1999). Este ciclo anual leva a um caudal abundante durante o Inverno e extremamente baixo durante o Verão, que em último caso pode provocar a seca completa da ribeira (Boix et al., 2010). A variabilidade do caudal é maior em pequenas bacias hidrográficas, tais como as de Santo André e Melides, pois ribeiras de extensão reduzida respondem rapidamente às chuvas (Spruill et al., 2000). Esta elevada variabilidade implica a reorganização das comunidades, devido ao facto de o próprio habitat ter sido modificado, primeiro pela perda de rápidos e depois pela perda de charcos (Bonada, 2003), conduzindo à redução do número de taxa (Graça et al., 2004). Ao longo dos últimos anos, o conhecimento sobre a biodiversidade de macroinvertebrados deste tipo de ribeiras tem vindo a aumentar (Bonada et al., 2000; Vivas et al., 2003). Em Portugal, através do estudo de ribeiras mediterrânicas localizadas a Sul, chegou-se à conclusão que a riqueza taxonómica das comunidades de macroinvertebrados bentónicos aqui presente é inferior à das comunidades de ribeiras do Norte e Centro do país (Graça et al., 2004).

 

No Sudoeste de Portugal têm sido desenvolvidos poucos estudos sobre a biodiversidade associada às ribeiras do tipo mediterrânico, com uma consequente falta de conhecimento sobre as suas comunidades, de como estas respondem às variáveis ambientais e se tais respostas são semelhantes às encontradas noutras ribeiras deste tipo. Nestas bacias particulares, que têm afloramentos de água subterrânea proveniente do aquífero de Sines, torna-se também importante conhecer as suas comunidades e verificar se estas se estruturam de forma diferente. Este trabalho tem como principais objectivos conhecer as comunidades de macroinvertebrados bentónicos que ocorrem nas bacias hidrográficas de Santo André e de Melides, compreender de que forma elas são condicionadas por diferentes variáveis ambientais.

 

 

Materiais e métodos

 

Áreas de estudo

 

Este estudo teve lugar em duas bacias hidrográficas de pequenas dimensões do Sudoeste de Portugal: Santo André e Melides. As ribeiras nelas incluídas são classificadas, no âmbito da Directiva Quadro da Água (DQA), como Ribeiras do Sul de Pequena Dimensão (S1; <=100) (Feio e Pinto, 2009). Foram amostradas 14 estações, 7 em cada bacia hidrográfica (Figura 1).

 

 

Figura 1. Estações de amostragem seleccionadas nas bacias hidrográficas de Melides e de Santo André, Sudoeste de Portugal. Estações de Melides: Cabo d’Água (CAG), Fonte dos Olhos (OLH), ribeira de Melides (RML1, RML2, RML3 e RML4) e ribeira do Samoucal (SAM). Estações de Santo André: ribeiras da Badoca (BAD1 e BAD2), Cascalheira (CAS1 e CAS2), Serradinha (CHA1 e CHA2) e Poço dos Caniços (CAN).

 

 

Amostragem

 

A amostragem ocorreu durante a Primavera (Maio de 2011), de acordo com o recomendado pelo Instituto da Água (INAG, 2008) e no final do Verão (Setembro de 2011), permitindo avaliar os efeitos da ausência/redução da escorrência continental. Os macroinvertebrados foram recolhidos utilizando a técnica de kick sampling, através da realização de arrastos de 60 segundos cada, com uma rede triangular de 30x30cm com malha de 500µm, com a recolha de três replicados em cada local de amostragem. A abertura da rede foi direccionada para montante, para assegurar que os organismos desalojados se deslocariam para o seu interior. Em cada local de amostragem foram identificados os habitats mais representativos e feita uma amostragem multi-habitat (Barbour et al., 1999). As amostras foram fixadas com etanol a 70% e posteriormente lavadas em laboratório num crivo com malha de 500µm. Cada amostra foi triada à lupa, separando-se os organismos presentes, os quais foram posteriormente contados e identificados ao nível taxonómico mais baixo possível, frequentemente a família, com recurso a Tachet et al. (2000).

 

Determinou-se a profundidade (m) e a velocidade da corrente (m/s) e obtiveram-se os valores da temperatura da água (ºC), da condutividade (mS/cm), do oxigénio dissolvido (mg/L) e dos sólidos dissolvidos totais (mg/L). Foram ainda determinadas concentrações de nitratos (mg/L), nitritos (mg/L), fósforo (mg/L), amónia (mg/L) e clorofila a (µg/L) para cada ponto de amostragem. A percentagem de matéria orgânica no sedimento foi obtida após a secagem das amostras em estufa a 60ºC durante 24 horas, seguida de queima em mufla (480ºC durante pelo menos 12 horas) (Pereira et al., 1997). A granulometria do sedimento foi determinada, após secagem das amostras em estufa a 60ºC durante 24 horas, por crivagem em bateria de peneiros com 2.00 mm, 0.50 mm, 0.25 mm e 0.063 mm de malha, e representada em unidades phi (Φ) (Blott & Pye, 2001).

 

Análise de dados

 

Para identificar os padrões espaciais e temporais da estrutura das comunidades de macroinvertebrados bentónicos foi efectuada uma Análise de Coordenadas Principais (PCO) incluída no Add-on PERMANOVA do software PRIMER 6 (Clarke & Gorley, 2006) sobre uma matriz de presença/ausência dos dados de abundância das comunidades de macroinvertebrados, usando o coeficiente de similaridade de Bray-Curtis. Para compreender quais as variáveis ambientais que condicionam as comunidades de macroinvertebrados bentónicos, calcularam-se as correlações de Spearman com os eixos da PCO. Estas correlações foram representadas como vectores, assim como as correlações com os valores de diversidade Shannon-Wiener (H’) e de Equitabilidade de Pielou (J’) de cada local de amostragem.

 

Com o intuito de averiguar as diferenças espaciais, temporais e de regime de caudal sobre as comunidades de macroinvertebrados bentónicos recorreu-se à análise de variância permutacional multivariável (PERMANOVA) (Anderson, 2001), com três factores fixos e ortogonais: Bacia (com dois níveis: Melides e Santo André), Época (com dois níveis: Maio e Setembro) e Regime (com dois níveis: Lêntico e Lótico). Os dados de abundância sofreram uma transformação [y=log(x+1)], e como medida de semelhança foi aplicada a similaridade de Bray-Curtis.

 

Uma análise de similaridades (SIMPER) foi aplicada por forma a identificar taxa responsáveis pela dissimilaridade entre cada factor.

 

 

Resultados

 

No âmbito deste estudo, recolheu-se um total de 124603 indivíduos, com uma densidade que variou entre 109 e 11174 ind/60’’ na bacia de Santo André e entre 462 e 10763 ind/60’’na bacia de Melides. Foram identificados 125 taxa distribuídos por 11 grandes grupos (Mollusca: Bivalvia e Gastropoda; Annelida: Oligochaeta; Insecta: Ephemeroptera, Odonata, Plecoptera, Hemiptera-Heteroptera, Trichoptera, Diptera, Coleoptera; Arthropoda: Crustacea – Amphipoda,) (Figura 2, Anexo 1). Desse total de taxa, 68 estavam presentes na bacia hidrográfica de Santo André e 112 na bacia hidrográfica de Melides. A classe Insecta foi a predominante em ambas as bacias. A ordem Diptera foi a mais representativa, devido à abundante presença de Chironomidae em todas as estações de amostragem, seguida das ordens Ephemeroptera e Amphipoda. A classe Gastropoda apesar de bem representada nas estações de Melides, maioritariamente pela espécie Potamopyrgus antipodarum (J.E. Gray, 1843), tem uma densidade muito reduzida nas estações de Santo André.

 

 

Figura 2. Número total de macroinvertebrados (ind/60”) identificados em grandes grupos taxonómicos, das bacias hidrográficas de Santo André e de Melides.

 

Os dois primeiros eixos da análise PCO da matriz de presença/ausência de taxa explicaram 39% da variância total (Figura 3). As correlações das variáveis ambientais com o primeiro eixo da PCO indicam que a matéria orgânica no sedimento (R=0,59), a granulometria do sedimento (R=0,46) e o oxigénio dissolvido (R=-0,45) são as variáveis que mais condicionam as comunidades de macroinvertebrados bentónicos nestas ribeiras. O primeiro eixo da PCO indica que maiores concentrações de oxigénio dissolvido, maior velocidade da corrente e sedimentos mais grosseiros estão associados a estações da bacia de Melides, enquanto maiores concentrações de matéria orgânica e de nutrientes, assim como sedimentos mais finos estão associados à bacia de Santo André. Através da análise do segundo eixo da PCO, verifica-se que este diferencia os locais através da presença de sedimentos mais finos, maior concentração de P, NO3, e clorofila a e maior condutividade. Os valores dos índices de diversidade de Shannon-Wiener e de Equitabilidade de Pielou estão mais relacionados com as estações de Melides. A análise PERMANOVA corrobora a separação entre as duas bacias hidrográficas indicada pela análise PCO, mostrando diferenças significativas entre a estrutura das comunidades de Melides e Santo André (p=0,001; Tabela 1). Verifica-se também que a estrutura das comunidades difere segundo a Época (p=0,03) e o Regime (p=0,005). Não se verificaram interacções significativas entre os factores em estudo.

 

 

Figura 3. Diagrama de Análise de Coordenadas Principais (PCO) sobre uma matriz de presença/ausência de taxa de macroinvertebrados bentónicos e sua relação com as variáveis ambientais (a azul) e com os valores de diversidade e equitabilidade (a vermelho). Os parâmetros físico-químicos estão abreviados da  seguinte forma: nitratos (NO3), nitritos (NO2), granulometria (G), clorofila a (Chl a), total de sólidos dissolvidos (TSD), matéria orgânica (MO), fósforo (P), temperatura (T), amónia (NH4), oxigénio dissolvido (O2), velocidade (V) e condutividade (Cond). Índice de diversidade de Shannon-Wiener (H’) e de equitabilidade de Pielou (J’). Meses de amostragem: Maio (estação de amostragem seguida do número 5, e.g.: CHA 1_5), Setembro (estação de amostragem seguida do número 9, e.g.: CHA 1_9).

 

Os resultados da análise SIMPER indicaram que, apesar de a semelhança média dentro de cada bacia ser baixa (38% para Santo André e 42% para Melides), a dissemelhança média entre as duas bacias é elevada (68%). Os maiores contributos para essa dissemelhança estão associados aos taxa Gammaridae (5%), P. antipodarum (5%), Caenidae (4%), Baetidae (4%), Elmidae (4%) e Ostracoda (3%), todos eles mais abundantes na bacia hidrográfica de Melides, enquanto o taxa Oligochaeta contribuiu em 3% para a dissemelhança entre bacias, sendo mais abundante em Santo André. A dissemelhança entre épocas de amostragem (66%) deveu-se sobretudo à maior abundância de Gammaridae (5%) e P. antipodarum (3%) em Setembro e de Baetidae (5%), Simulidae (4%), Oligochaeta (4%) e Ostracoda (3%) em Maio. Já a dissemelhança entre os locais com regime lêntico e lótico (66%) deveu-se maioritariamente à elevada abundância de Gammaridae (6%) e Baetidae (4%) em ambientes lóticos e de Ostracoda (4%), Oligochaeta (4%) e Chironomidae (4%) em locais lênticos.

 

Tabela 1. Resultados da Permanova a três factores: época de amostragem (Maio/Setembro), bacia hidrográfica (Melides/Santo André) e regime de caudal (lêntico/lótico). Análise com base na similaridade de Bray Curtis dos dados de presença/ausência de macroinvertebrados bentónicos, transformados com log(x+1).

 

Source

df

SS

MS

Pseudo-F

p

“Unique perms”

Bacia

1

5671,7

5671,7

3,3802

0,001

997

Época

1

3124

3124

1,8618

0,03

999

Regime

1

4061,5

4061,5

2,4205

0,005   

996

Bacia x Época

1

1780,7

1780,7

1,0613

0,402   

998

Bacia x Regime

1

2305,6

2305,6

1,3741

0,152

999

Época x Regime

1

1465,5

1465,5

0,87338

0,59     

999

Bacia x Época x Regime

1

882,14

882,14

0,52574

0,935   

998

Residual

17

28525

1677,9

 

 

 

Total

24

50643

 

 

 

 

Não significativo: p> 0.05; significativo: 0.05≥ p> 0.01; muito significativo: p ≤ 0.01.

 

Discussão

 

Tal como verificado em estudos anteriores em ribeiras do tipo mediterrânico, a ordem Diptera é a mais abundante, seguida da ordem Ephemeroptera (Coimbra et al., 1996; Pires et al., 2000). Os Diptera são maioritariamente representados pela família Chironomidae, que está presente em todas as estações de amostragem, tal como referido para outras ribeiras deste tipo (Coimbra et al., 1996; Bonada et al., 2000; Vivas et al., 2003; Acuña et al., 2005; Chaves et al., 2008). A elevada densidade de gastrópodes observada na bacia de Melides deve-se à presença de P. antipodarum na estação OLH, um local que recebe um caudal permanente do aquífero profundo de Sines (Monteiro et al., 2008). Esta espécie, com uma distribuição natural exclusiva de ambientes estuarinos e salobros, é conhecida como invasora de ecossistemas de água doce (Boycott, 1936; Hunter e Warwick, 1957). Tem preferência por temperatura e caudal constantes (Richards et al., 2001), por leitos arenosos (Dorgelo, 1988) e grande tolerância a elevadas concentrações de nutrientes (Alonso e Camargo, 2003), características consistentes com as encontradas na estação OLH. Múrria et al. (2008) encontraram uma relação negativa entre P. antipodarum e Chironomidae, podendo estar relacionada com o facto dos primeiros se deslocarem a velocidades até 3 cm/min (Heywood e Edwards, 1962) e terem a capacidade de remover os chironomidae dos seus casulos. Tal pode explicar a menor densidade destes dípteros neste local.

 

A análise de ordenação efectuada indicou uma clara separação entre as comunidades das bacias hidrográficas de Melides e Santo André, o que foi corroborado pela obtenção de diferenças significativas entre as duas bacias, apesar da sua proximidade geográfica. A ordenação indica ainda que as comunidades de invertebrados de Melides são mais diversas e equitativas e estão associadas a concentrações em oxigénio dissolvido mais elevadas, menor percentagem de matéria orgânica e granulometria mais grosseira. Estes resultados são concordantes com os obtidos por Chaves et al. (2005), que indicam que elevadas densidades de macroinvertebrados bentónicos estão relacionadas com a disponibilidade de alimento, enquanto a riqueza taxonómica está associada a parâmetros hidráulicos controlados por condições climáticas. Efectivamente, na bacia de Santo André existe um maior número de habitats lênticos, nos quais a menor velocidade de corrente diminui a capacidade de transporte de matéria orgânica e inorgânica, levando à sua deposição. Uma vez que estas ribeiras possuem uma galeria ripícola bem estruturada, em locais lênticos, apesar de não haver transporte de matéria orgânica ao longo da linha de água e de a produtividade autotrófica ser reduzida devido ao ensombramento, aquela contribui com uma quantidade de matéria orgânica (alóctone) considerável, tal como indicado noutros estudos (Vannote et al., 1980; Allan e Castillo, 2007). A granulometria de sedimento é também um factor determinante para a diversidade das comunidades de invertebrados, com menor diversidade associada a sedimentos mais finos, uma vez que a dimensão e a mobilidade das partículas condicionam as comunidades, pois apenas espécies capazes de penetrar os interstícios do substrato aqui proliferam (Beisel et al., 1998; Pinto e Feio, 2009). Zonas caracterizados por sedimentos finos são mais homogéneas, o que implica menor diversidade de habitats e diminui o seu potencial para acomodar um maior leque de espécies (Vannote et al., 1980; Beisel et al., 1998), corroborando a menor diversidade encontrada nos locais lênticos das bacias estudadas, cuja comunidade foi significativamente diferente da dos habitats lóticos.

 

Salienta-se que os factores bacia, época e regime de caudal diferentes são estruturantes para estas comunidades. Verificou-se que para condições sazonais e de regime de caudais semelhantes, as comunidades diferem entre bacias, apesar de se encontrarem geograficamente próximas, contribuindo para a heterogeneidade da biodiversidade da região.

 

 

Conclusão

 

A estrutura das comunidades encontradas neste estudo assemelha-se a outras encontradas em ribeiras do tipo mediterrânico. Em geral, estas ribeiras são dominadas pela classe Insecta, especialmente pela família Chironomidae (ordem Diptera), taxa euribionte, tolerante a uma grande variedade de condições. Apesar de serem duas bacias hidrográficas limítrofes, Melides e Santo André possuem comunidades bastante distintas, o que parece estar relacionado com a influência directa do aquífero profundo de Sines, que proporciona um caudal permanente ao longo de todo o ano na ribeira de Melides. O regime de caudal (lêntico e lótico) dos locais estudados é outro dos factores determinantes para a estrutura das comunidades, uma vez que apresentam diferenças consideráveis nas condições ambientais (e.g. oxigénio dissolvido, matéria orgânica e granulometria do sedimento).

 

 

Agradecimentos

 

Os autores agradecem ao Coronel José Rosa Pinto pela sua preciosa contribuição na identificação das espécies que compõem a galeria ripícola da área em estudo. Este estudo foi desenvolvido no âmbito do Projecto GroundScene – “Modelação de cenários de exploração em aquíferos de zonas costeiras: efeitos na biodiversidade de lagoas e respectivas ribeiras como ecossistemas dependentes de água subterrânea” (PTDC/AAC-AMB/104639/2008) e do Projecto Estratégico PEstOE/MAR/UI0199/2011, financiados pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

 

 

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Vivas S, Casas JJ, Pardo I, Robles S, Bonada N, Mellado A, Prat N, Alba-Tercedor J, Álvarez M, Bayo MM, Jáimez-Cuéllar P, Suárez ML, Toro M, Vidal-Abarca MR, Zamora-Muñoz C, Moyá G, 2003. Aproximación multivariante en la exploración de la tolerancia ambiental de las familias de macroinvertebrados de los ríos mediterráneos del proyecto GUADALMED. Limnetica 21: 149-173.

 

 

Anexo 1 . Lista de taxa de macroinvertebrados identificados nas ribeiras de Melides e Santo André.

 

Taxa

Melides

Santo André

Acroloxus sp.

x

 

Aeshnidae

x

x

Ancylus sp.

x

x

Anthomyiidae

x

x

Assiminea sp.

x

 

Athericidae

x

 

Atrichopogon sp.

 

x

Atricops crassipes

x

 

Atyaephyra desmaresti 

x

x

Baetidae

x

x

Bivalvia n.i.

x

 

Brachycentridae

x

 

Branchiobdellidae

x

 

Bryozoa n.i.

x

 

Caenidae

x

x

Capniidae

x

x

Ceratopogonidae

x

x

Chaoboridae

x

 

Chironomidae

x

x

Chrysomelidae

x

x

Coenagrionidae

x

x

Corbicula fluminea

x

 

Cordulegasteridae

x

 

Corixidae

x

x

Culicidae

x

 

Curculionidae

x

x

Cyclopoida n.i.

x

x

Daphniidae

x

 

Diptera n.i.

x

x

Dixidae

x

x

Dolichopodidae

x

 

Dryopidae

x

x

Dytiscidae

x

x

Ecnomidae

x

x

Elmidae

x

x

Empididae

x

x

Ephemeroptera n.i.

x

 

Ephydridae

x

x

Erpobdellidae 

x

 

Ferrissia sp.

x

x

Gammaridae

x

x

Gerridae

x

 

Gerris sp.

x

 

Glossiphonia sp.

x

 

Glossiphoniidae

x

 

Glossosomatidae

x

 

Gomphidae

x

 

Gyrinidae

x

x

Gyrinus sp.

x

 

Haliplidae

x

x

Haliplus sp.

x

 

Harpacticoida n.i.

 

x

Helobdella sp.

x

 

Helophoridae

x

x

Heteroptera n.i.

 

x

Hydra sp.

x

x

Hydracarina n.i.

x

x

Hydraena sp.

x

 

Hydraenidae

x

x

Hydrobiidae

x

 

Hydrochidae

x

x

Hydrometridae

x

x

Hydrophilidae

x

x

Hydropsychidae

x

x

Hydroptilidae

x

 

Hydroscaphidae

 

x

Hygrobiidae

 

x

Ilyocryptus sordidus

x

x

Janiridae

x

x

Laophonte sp.

 

x

Lepidoptera n.i.

 

x

Leptoceridae

x

x

Leptophlebiidae

x

 

Lestidae

x

 

Leuctridae

x

 

Libellulidae

x

x

Limoniidae

x

x

Lymnaea truncatula

x

x

Lymnaeidae

x

x

Mesoveliidae

x

x

Myxas glutinosa

 

x

Naucoridae

x

 

Nematoda n.i.

x

x

Nepa sp.

x

 

Nevrorthidae

x

 

Noteridae

x

 

Notonectidae

x

x

Odonata n.i.

x

x

Oligochaeta n.i.

x

x

Ostracoda n.i.

x

x

Perlodidae

 

x

Phryganeidae

x

 

Physa sp.

x

 

Physa fontinalis

x

 

Physidae

x

x

Pisidium milium

x

 

Planorbidae

x

 

Planorbis sp.

x

 

Plecoptera n.i.

x

 

Polycentropodidae

x

x

Potamopyrgus antipodarum

x

 

Proasellus sp.

x

 

Procambarus clarkii

x

x

Psychodidae

x

x

Ptychopteridae

x

x

Pulmonata n.i.

x

x

Rhagionidae

 

x

Rhyacophilidae

x

 

Sericostomatidae

x

 

Sialis sp.

x

x

Simocephalus vetulus

x

 

Simuliidae

x

x

Sphaeriidae

x

 

Stratiomyidae

x

 

Tabanidae

 

x

Thaumeleidae

x

 

Tipulidae

x

x

Trichoptera n.i.

x

 

Turbellaria n.i.

x

 

Valvata piscinalis

x

 

Veliidae

x

x

Vertigo sp.

x

 

 


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