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Mário
Ruivo,
Presidente do Fórum
Permanente para os Assuntos do Mar
"Para
a comunidade científica, a preservação da biodiversidade
marinha tem sido objecto de particular atenção mas de
difícil comunicação aos cidadãos e parceiros sociais. "
(Entrevistado por Paula Sobral - SPECO, Dezembro
de 2011)
Marcado pela importância
do Oceano para o futuro da humanidade, o trajecto do
Prof. Mário Ruivo começou na Universidade de Lisboa,
onde se formou em Biologia. Na sequência da sua
especialização em Oceanografia Biológica e Gestão
dos Recursos Vivos (Sorbonne/Laboratório Arago),
participou nos primeiros mergulhos em águas
profundas portuguesas no Bathyscaphe FNRS III. A par
de um período activo de investigação na costa
portuguesa, no Mediterrâneo e no Atlântico Noroeste
sobre recursos vivos numa perspectiva ecológica e de
gestão racional de “stocks” pesqueiros, participou
como perito/delegado português em organizações
internacionais (v.g. ICES, ICNAF). Foi
Director da Divisão de Recursos Aquáticos e do
Ambiente/Departamento de Pescas da FAO (Roma),
Secretário Executivo e Vice-Presidente da COI/UNESCO
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(Paris), Conselheiro Científico da EXPO’98,
Coordenador da Comissão Mundial Independente para os
Oceanos, Membro da Comissão Estratégica dos Oceanos
e Professor Catedrático Convidado da Universidade do
Porto/ICBAS. Actualmente é Presidente por eleição,
do Fórum Permanente para os Assuntos do Mar,
exercendo outras actividades públicas na área do
oceano e do desenvolvimento sustentável. É autor de
numerosas publicações científicas nas áreas da
Oceanografia Biológica, Ecologia e Gestão dos
Recursos Pesqueiros, bem como de estudos, ensaios e
artigos sobre Política e Governação do Oceano,
Cooperação Internacional em Assuntos do Oceano,
Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Ciência,
Sociedade e Ética. Tem participado em actividades de
divulgação e sensibilização do público aos Assuntos
do Mar no âmbito de uma governação responsável do
Oceano. Foram-lhe atribuídos vários prémios e
agraciado com ordens honoríficas nacionais e
estrangeiras. |
P.S. - SPECO:
Prof. Mário Ruivo, qual o enquadramento dos princípios ecológicos que presidem
às questões relacionadas com o Mar e qual a sua
sensibilidade relativamente a isso?
Realço o papel
preponderante da nossa espécie – Homo sapiens – na
evolução planetária em curso, reconhecida na atribuição do
termo Antropoceno ao presente período geológico.
Esta perspectiva implica
um novo paradigma na gestão dos ecossistemas que integre os
impactos de origem antropogénica e as inerentes implicações
metodológicas e institucionais. Nesse sentido, o conceito de
desenvolvimento sustentável do Oceano terá de apoiar-se nos
seus quatros pilares: económico, social, ambiental e
institucional.
O processo subjacente a
esta abordagem sistémica tem sido formatado pelo
conhecimento e intervenção das comunidades científica e
técnica. Estas têm sido determinantes na percepção do Oceano
como espaço dinâmico e interactivo com os outros
compartimentos ambientais e as sociedades humanas, visão que
inspira a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar
(CNUDM). Pode dizer-se que a Humanidade, depois de
confrontada por um largo período com os mistérios do Mar
entrou na fase actual de ocupação tridimensional do Oceano,
com base no conhecimento científico e nas tecnologias. Há
que reconhecer que a nossa espécie, no meio aquático, sem
conhecimento científico e tecnologia, é cega, surda e muda!
Começa a afirmar-se um
novo paradigma, em que a abordagem do Oceano deixa de ser
fragmentada por domínios sectoriais, para ser encarada de
forma sistémica e interdisciplinar, com tudo o que isso
implica. Esta perspectiva gera, sem dúvida, dificuldades de
aplicação, pois não se adequa à forma tradicional e
compartimentada como as instituições foram “inventadas” e
mantidas. É neste contexto que a Ecologia, ciência que
sempre me fascinou pela sua tentação holística, assume
crescente importância face aos sistemas complexos em que a
humanidade se insere.
Em
Portugal, quais lhe parecem ser os momentos mais importantes
da afirmação das ciências do Mar e que progressos considera
que daí resultaram?
É tradicional reconhecer
algumas fases marcantes que, de certo modo, face à carência
de estudos aprofundados, são condicionadas por considerações
de ordem subjectiva. Na verdade, o panorama das Ciências do
Mar em Portugal, sobretudo nos últimos tempos, reflecte o
esforço paciente e discreto de investigadores e docentes
universitários que, frequentemente isolados ou em pequenas
equipas, conseguiram afirmar-se contribuindo para que o Mar
adquirisse visibilidade nas preocupações sociais.
Começa-se, normalmente,
por referir as campanhas do Rei D. Carlos I e os trabalhos
do pioneiro Prof. Alfredo Magalhães Ramalho a bordo do “Albacora”,
pondo em prática uma abordagem interdisciplinar nas
campanhas ao largo da costa portuguesa.
Na minha perspectiva,
uma segunda fase marcante surge com o processo de preparação
e definição das posições de Portugal no âmbito da negociação
conducente à assinatura, em 1982, da Convenção das Nações
Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), que veio estabelecer
uma ordem jurídica para os mares e oceanos, visando a
compreensão e cooperação mútua ao serviço de todos os países
do mundo. Complementarmente, a Conferência das Nações Unidas
sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (1992) – mais
conhecida como a Conferência do Rio –além de conferir
estatuto jurídico ao conceito de Desenvolvimento
Sustentável, contribuiu para complementar a CNUDM,
reconhecendo a natureza sui generis da Zona Costeira
e a sua estreita articulação com a hidrosfera (rios e
estuários), assim como a interface entre os continentes e o
Oceano.
Uma fase de particular
importância para o nosso país foi a EXPO 98, com o tema “O
Oceano – Um Património para o Futuro”. Este evento, com
forte componente de sensibilização pública, ofereceu à
comunidade científica a oportunidade de contribuir de forma
significativa para a divulgação de uma nova visão do Mar. O
interesse a nível mundial da comunicação social e do público
favoreceu o debate sobre a importância do Oceano e dos seus
recursos no desenvolvimento sustentável do planeta. Foi,
assim, possível, por iniciativa de Portugal, promover a
Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas declarando o
ano de 1998 como Ano Internacional dos Oceanos, fomentando
uma reflexão e contactos que vieram reforçar a estratégia de
internacionalização que pretendíamos. A nível nacional
conduziu ao lançamento, pelo Ministério da Ciência e
Tecnologia, do Programa Dinamizador de Ciências e
Tecnologias do Mar e à criação da Comissão Oceanográfica
Intersectorial. No fundo, houve todo um conjunto de eventos
e iniciativas que contribuíram para colocar os assuntos do
mar na agenda política.
Neste contexto, na
última década, foi possível sediar em Portugal o EurOcean
(Centro Europeu de Informação em Ciências e Tecnologias do
Mar) e, mais tarde, a Agência Europeia de Segurança
Marítima, reforçando a imagem e vocação do nosso país para
acolhimento de instituições oceanográficas internacionais.
Fala-se
muito em Portugal do Mar como um desígnio da nação. O que
pensa desta ideia?
Mais do que um desígnio,
há muito que o Mar é um elemento determinante da identidade
e da afirmação de Portugal, pelo posicionamento geográfico
favorável no Atlântico do conjunto dos espaços marítimos do
Continente, dos Açores e da Madeira – perspectiva até há
pouco tempo insuficientemente aproveitada.
Foi neste contexto que
se gerou uma dinâmica para tentar ultrapassar a tradicional
atitude romântica face aos mistérios do Mar, apoiada no
conhecimento científico e nas suas aplicações.
Mais recentemente, tem
vindo a tomar corpo uma nova arquitectura institucional da
qual seria pivot a Comissão Interministerial para os
Assuntos do Mar (CIAM), em articulação com a Estrutura de
Missão para os Assuntos do Mar (EMAM) e a Estrutura de
Missão para a Extensão da Plataforma Continental (EMEPC),
sistema organizativo inovador embora, há que reconhecê-lo,
ainda experimental. O XIX Governo Constitucional acaba de
criar uma Secretaria de Estado do Mar, dotada de um mandato
abrangente, na busca de formas de funcionamento que convirá
acompanhar e avaliar com objectividade. De notar que se
mantêm duas pontes informais com a sociedade civil, o Fórum
Permanente para os Assuntos do Mar e o Fórum Empresarial
para a Economia do Mar, também em evolução.
Quais são
os grandes desafios que se colocam às ciências do Mar nos
nossos dias? Estará Portugal preparado para os enfrentar?
Partilho a convicção de
que integrar no processo de desenvolvimento nacional a maior
Zona Económica Exclusiva da União Europeia e uma vasta
Plataforma Continental em processo de extensão, impõe um
adequado conhecimento científico e uma gestão racional dos
ecossistemas, com vista a assegurar o desenvolvimento
sustentável destes espaços marítimos.
Dispomos de uma
comunidade científica qualificada, com alto nível de
produção científica, mas é imperativo reforçar a capacidade
nacional, nomeadamente em navios de investigação e
plataformas de trabalho no Mar, pondo termo à instabilidade
de programas e projectos que nos tem feito perder energia e
oportunidades. Temos conceitos, ideias, estratégias,
dispomos de redes de colaboração e de bons núcleos de
especialistas e técnicos. Estamos, no entanto, ainda,
confrontados com inexplicáveis bloqueios a nível
institucional que não nos permitem agir com coesão,
continuidade e optimização dos meios e dos recursos humanos.
Noto com satisfação as
conclusões do Encontro “Mar Português: Conhecimento,
Valorização e Desenvolvimento” que teve lugar na
Universidade do Algarve, em Novembro último, que, entre
outros objectivos para um roadmap a elaborar em 2012,
recomenda a reactivação do Programa Dinamizador de Ciências
e Tecnologias do Mar (PDCTM) e o reforço da Comissão
Oceanográfica Intersectorial do Ministério da Educação e
Ciência (COI-MEC). Cabe, aqui, um papel determinante à
comunidade científica, o que requer coesão e credibilidade
como parceiro social incontornável para uma governação
responsável do Oceano. O almejado progresso e aproveitamento
das potencialidades dos espaços marítimos nacionais depende,
em grande parte, da mobilização e envolvimento das
comunidades científica e técnica, de outros sectores
interessados e da sociedade civil em geral, influenciando a
formulação de políticas e estratégias viradas para o futuro,
ultrapassando os constrangimentos da crise económica e
financeira actual.
A criação
de áreas marinhas protegidas tem sido sugerida como
essencial na preservação da biodiversidade marinha. O que
pensa desta estratégia?
Para a comunidade
científica, a preservação da biodiversidade marinha tem sido
objecto de particular atenção mas de difícil comunicação aos
cidadãos e parceiros sociais. A interpretação e compreensão
dos fenómenos naturais de larga escala, afectados pelos
impactos ambientais de origem antropogénica, requerem um
intenso esforço de investigação e de divulgação com vista a
criar receptividade a medidas de intervenção que serão tanto
mais eficazes quanto consensuais. Olhando para os
inventários, estudos taxonómicos de biologia das espécies,
analisando o estado dos conhecimentos sobre a estrutura e
funcionamento dos ecossistemas costeiros, sentimo-nos
relativamente confortados; contudo, quando avaliamos a
situação respeitante ao Alto Mar e aos fundos marinhos, não
podemos deixar de nos sentir esmagados pelo quão pouco
conhecemos.
Haverá que prosseguir o
esforço por um lado de aprendizagem e por outro de
divulgação, com vista a mobilizar a vontade política,
passando da teoria à prática de uma gestão ecossistémica dos
espaços marítimos, como preconizado nos últimos anos pela
União Europeia e pelo sistema das Nações Unidas.
Têm-se acentuado as
tentativas de uma gestão mais eficaz da pesca, face à
degradação do estado dos stocks e dos outros recursos vivos
à escala mundial, articulando-as com a gestão da
biodiversidade marinha. Esta orientação confronta-se, porém,
com o parco conhecimento sobre os grandes ecossistemas
marinhos (Large Marine Ecosystems – LME), em particular
quanto aos seus limites geográficos estrutura e
funcionamento, como é o caso da região oceanográfica
Ibero-Atlântica.
A preparação para a
Conferência Rio+20, que terá lugar em Junho deste ano,
oferece oportunidades para avançar na promoção de uma
governação responsável do Oceano, apoiada numa cidadania
informada e interveniente.
Agora que
o declínio dos vários stocks de predadores oceânicos é já
uma realidade reconhecida, pensa que ainda é possível
inverter esta tendência através da prática de pesca
sustentável? Que compromissos teremos de fazer enquanto
sociedade?
Tenho acompanhado a
evolução da gestão da pesca, condicionada por políticas
produtivistas para além da capacidade dos recursos, como
amplamente demonstrado nas estatísticas e análises da FAO.
Não podemos esquecer que
a espécie humana tem demonstrado uma ampla capacidade de
interferência com os processos naturais, que se reflecte de
forma particularmente preocupante nas alterações climáticas
em curso e no próprio Oceano (aquecimento, aumento do nível
do mar, acidificação, etc.), para além de elevados níveis de
poluição e de degradação ambiental.
É, pois, do mais
elementar bom senso não tentar esconder que se impõem
medidas de mitigação e ajustamento, apesar das crises
económica, financeira e estrutural.
Os constrangimentos que
há mais de uma década têm sido impostos ao IPIMAR,
resultante de uma visão burocrática e administrativa das
tutelas conduziu à erosão desta instituição enfraquecendo a
capacidade de resposta a nível nacional e de intervenção na
definição das políticas europeias; a pesca não se defende,
em Bruxelas, com palavras mas com dados e argumentos
científicos credíveis.
Esperemos que o novo
Instituto Português do Mar e da Atmosfera, cujo mandato não
é ainda completamente do conhecimento público, corresponda
ao exigível. Seria desejável que fosse iniciado um debate
público, sobre a missão, estrutura e meios previstos,
envolvendo as partes interessadas, nomeadamente a comunidade
científica e tecnológica do mar, tendo em conta tratar-se de
uma instituição fundamental para a Estratégia Nacional do
Mar e os compromissos internacionais do Estado.
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